Reportagens

Chico Buarque || Coliseu dos Recreios

O regresso abençoado de Chico Buarque, doze anos depois. Foi bonita a festa, pá!

Não haverá muitos adjectivos que ainda não terão sido ditos para um artista que esgota quatro noites de Coliseu em Lisboa e mais duas de Coliseu no Porto. Chico é intemporal, trans-geracional, unânime. Tem um público conquistado à partida (“You had me at “Hello””), ainda para mais tendo em conta que traz na bagagem o seu enésimo álbum, o belíssimo Caravanas, lançado em 2017, e o espectáculo a que assistimos traz-nos uma mistura suave entre presente e passado.

Começando pelo aspecto do concerto menos convincente – ser a mesma setlist em todos os concertos, fixa, standardizada, é algo que não encaixa na nossa compreensão. Mesmo sabendo que isso é o modus operandi normal dos “shows” que vêm do outro lado do Atlântico, é tão redutor para alguém que carrega o peso de centenas de músicas produzidas ao longo dos anos. O erro poderá ser meu, a curiosidade leva a espreitar o que foi feito antes e junta-se à vontade de que aquela noite que escolhi será diferente das outras. Mas tal simplesmente não acontece – ganha a segurança, perde a emoção.

Mas Chico é enorme. Master of his domain. Encanta com a sua voz, com o seu sorriso malandro, com poucas palavras. Festeja as várias parcerias que foi fazendo ao longo da carreira, casos de Edu Lobo (“A Moça do Sonho”), Tom Jobim (“Retrato em Branco e Preto” e “Sabiá”), o seu próprio neto Chico Brown, (de quem é revelada a história de “Massarandupió”, praia onde foi enterrado o cordão umbilical que deu vida ao filho de Helena Buarque e Carlinhos Brown) e, por fim, ao histórico baterista Wilson das Neves, falecido no ano passado (“Grande Hotel”, onde Chico usa um chapéu de palha que era uma das principais características de Wilson).

Salpicando músicas do passado com as mais deliciosas de Caravanas (“Blues para Bia”, “Jogo de Bola”, “Tua Cantiga”, por exemplo), chegamos ao primeiro encore, para o qual ficaram guardadas músicas mais emblemáticas, incluídas também em Até Pensei que Fosse Minha, o disco meio tributo, meio usurpação saudável de António Zambujo: “Geni e o Zepelim”, “Futuros Amantes”. E para a saidera ficaram “Paratodos” (onde vêm à baila os nomes de Caetano, Vinicius, Dorival Caymmi, Cartola, João Gilberto, Nara, Gal, Bethânia) e a tão nossa “Tanto Mar”, lembrando o 25 de Abril, levantando cravos.

A satisfação do público era geral e consensual, afinal de contas ter um senhor emblemático para a língua portuguesa, quer através das músicas, quer através dos seus saborosos livros não é todos os dias, e a espera já era longa. No Brasil infelizmente têm esquecido um pouco isso, e Chico tem sentido na pele o seu “Injuriado”, quer por questões políticas, quer por razões de suposto machismo em algumas letras, mas Chico será para sempre superior a tudo isso. Obrigado Chico e volta rápido!

Setlist:
Minha embaixada chegou (Assis Valente cover)
Mambembe
Partido alto
Iolanda
Casualmente
A moça do sonho
Retrato em branco e preto
Desaforos
Injuriado
Dueto
A volta do malandro
Homenagem ao malandro
Palavra de mulher
As vitrines
Jogo de Bola
Massarandupió
Outros sonhos
Blues pra Bia
A história de Lily Braun
A bela e a fera
Todo o sentimento
Tua cantiga
Sabiá
Grande Hotel
Gota d’água
As caravanas
Estação derradeira
Minha embaixada chegou (Assis Valente cover)

Encore:
Geni e o Zepelim
Futuros amantes

Encore 2:
Paratodos
Tanto Mar

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