Reportagens

Capote Fest 2018

Quando tudo neste admirável mundo novo conspira contra o rock, há algo de muito nobre neste gesto de resistência chamado Capote Fest. Uma aldeia gaulesa resiste…

Foi bonita a festa, pá. E a brincar, a brincar, já cá canta a terceira edição do Capote Fest. Queriam um festival roqueiro e genuíno, versátil e independente, alentejano e cosmopolita? Vieram, então, ao sítio certo.

Quinta-Feira, 10 de Maio. O Festival arrancou quinta-feira, com um único concerto a acontecer na mítica Sociedade Harmonia Eborense, só para aguçar o apetite para o que viria a seguir. Coube a honra de abertura aos Cajado, duo experimental do Porto com fortes ligações ao Alentejo. Como conseguiram eles que as suas guitarras e teclados soassem à vastidão melancólica da planície alentejana? Não o sabemos explicar. Mas sentimos algo de Ry Cooder com migas na bonita viagem que fizemos com eles. A projecção simultânea de vídeos sublinhou ainda mais o poder cinematográfico da sua música introspectiva e atmosférica.

Sexta-Feira, 11 de Maio. O Festival assentou depois arraiais no Monte Alentejano, cujos traços rústicos não poderiam ser mais apropriados a um evento que tem no orgulho das suas raízes um dos seus pilares.

A noite abriu com os Plause, um sofisticado pós-rock instrumental que degustámos com deleite. Gostámos das forças contrárias que os habitam: a circularidade minimalista de arpejos abstractos entorpecendo-nos com o seu langor; o groove tremendo da sua bateria obrigando os nossos pés a dançarilhar. Imaginem os compassos estranhos dos Battles e dos Paus, substituam as suas neuroses por aulas de yoga na Aldeia Nova de São Bento, e terão uma ideia do som dos Plause.

E como nem só de experimentalismos vive o homem, soube-nos bem o formato-canção servido pelos lisboetas Eu Fúria. Era o momento certo para fruir do seu indie pop solar e ferozmente romântico, alimentado a testosterona pós-adolescente.

Já os Awaiting the Vultures não cabem, nem querem caber, nos três minutos de uma canção. Com o seu pós-metal instrumental, distendem-se em longas epopeias, com mais acordes num só tema do que muitas bandas em álbuns inteiros. Tudo ao serviço da pura emoção: mil gradações diferentes de tristeza, explodindo por vezes na mais violenta das raivas, regressando outra vez ao torpor melancólico, num eterno jogo de contrastes entre peso e leveza, luz e sombra. Se o fim do mundo tiver uma banda-sonora será com certeza interpretada pela banda eborense. Destaque para o imenso baterista e o seu tecnicismo quase fascista.

Mas o momento mais alto da noite aconteceu no fim, com os lisboetas Lâmina a assombrar-nos com o seu doom sinistro e arrastado. Ao pé deles, os Black Sabbath parecem leves e frívolos como uma banda de reggaeton. Enorme a Catarina Henriques na bateria, possante e demoníaca como uma deusa do mal.

Os mais rijos ainda tiveram coragem para ir dar uns pezinhos de dança à discoteca Praxis, com discos escolhidos pelos nossos DJs, numa feliz parceria entre o Capote Fest e o Altamont.

Sábado, 12 de Maio. A noite começou da melhor maneira com Momma T & the Cameltoes, miúdos de Évora que mais pareciam nascidos e criados em Memphis, tal foi a negritude da sua soul. Ana Ribeiro é a filha branca que o James Brown nunca assumiu, escrevendo e cantando os temas mais funky alguma vez tocados abaixo do Tejo. Mas sem o groove dos seus músicos, os nossos dedos dos pés não se divertiriam tanto.

Seguiram-se os Conjunto!Evite e ninguém nos convence que não congelaram estes rapazes na Inglaterra dos seventies, e os descongelaram na semana passada, tal foi a pureza vintage do seu rock progressivo. Os solos infinitos, os compassos marados, as súbitas mudanças melódicas e rítmicas, o prazer demoníaco com que o teclista solava: tudo confirma a nossa teoria. Afinal, o prog rock está bem mais vivo do que os críticos se apressam em apregoar desde ’77.

Sucederam-se os Prana, cujo indie rock se situa nas antípodas estéticas dos Conjunto!Evite: simplicidade pop, melodias orelhudas, refrões certeiros. Enorme o vocalista, cheio de sentido de humor nas letras e tusa na voz. Todo um manual de bom gosto indie, a fazer lembrar os saudosos Ornatos. São João da Madeira é muito mais do que chapéus e sapatos.

A noite fechou em grande com os veteranos Dapunksportif, rockalhada suja a cheirar a gasolina e a poeira de estrada, sem mariquices hipster, apenas riffs demolidores. Um som maciço como um rochedo, de fazer inveja aos próprios Queens of the Stone Age. O rock está tão morto como tu e eu.

Enfim, um enorme festival de rock, com o bom gosto, pluralidade e pujança a que o Capote Fest sempre nos habituou.

Para o ano estaremos cá outra vez.

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Fotografia: Inês Silva

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