Reportagens

Capitão Fausto || Coliseu dos Recreios

Começa a ser tarefa ingrata tecer novos e criativos elogios aos Capitão Fausto. As quase duas horas de concerto pré-natalício no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, consistiram num manancial de boas canções, elegante pop/rock de fácil sedução mas melhor absorção com o tempo – o melhor disto tudo é também o menos bom disto tudo: é que cada vez mais será difícil sermos surpreendidos com os cinco de Alvalade, o que parecendo que não é um tremendo elogio.

Já será difícil abrirmos a boca de espanto como em 2014, quando Pesar o Sol transformou o rock saltitante da escola Franz Ferdinand em canções de outras cores, outras referências, outras épocas. E em 2016 lá nos deram a volta outra vez, apresentando Capitão Fausto têm os Dias Contados e voltando a surpreender incautos e já devotos. Ao vivo, a noite de quinta-feira no mui nobre Coliseu já não surpreendeu quem já tinha contactado com estas canções ao vivo – mas, caramba, que grande sorriso deixou no percurso posterior até casa.

A casa estava cheia e a disposição de palco prometia (e cumpriu): banda a tocar no meio da sala, aproveitando a disposição circense típica no Coliseu por esta altura do ano – ao fundo, no tradicional palco, músicos de apoio tocando, por exemplo, flauta, trompete e clarinete, seguindo a lógica musical usada no celebrado disco editado este ano – embora a jarda rock dos cinco Faustos tenha limitado a total perceção desta mais valia no concerto. Sem estrado na plateia, as escadas permitiam um registo quase de anfiteatro onde à proximidade com os músicos se juntava algo útil para os menores de altura: não havia possibilidade real de não ver os músicos. Lá em cima, os cinco tocavam de frente uns para os outros, num registo mais parecido com o de um ensaio que o de uma celebração em palco para os devotos. Resultou, e bem – o som esteve impecável e o inusitado da coisa deu pontos extra à noite.

E a música? “Corazón” e “Morro na Praia” foram as primeiras cantigas, e logo se percebeu que Os Dias Contados seria o mote, embora a gestão do alinhamento tenha sido inteligente o suficiente para agradar aos fãs dos tempos mais recentes e aos adeptos da primeira hora. Logo depois, “Maneiras Más” e “Nunca Faço nem Metade” trouxeram-nos a memória de Pesar o Sol, com Tomás Wallenstein, o muito castiço vocalista, a dirigir-se por esta altura pela primeira vez ao público: “Vocês são simpatiquíssimos”, atira. Tu é que és, homem. Toca mais.

E tocou. As músicas não diferem brutalmente em palco daquilo que são em disco, havendo neste concerto a preocupação de encurtar aqui e ali alguma da liberdade que noutros concertos víamos. E aquela sequência que antecedeu o encore e nos devolveu Gazela, o primeiro álbum desta rapaziada, “Supernova”, “Febre”, “Ideias” (esta de Pesar o Sol), “Teresa” e “Verdade” foram aviadas assim de seguida, quase sem paragens. E depois “Amanhã Tou Melhor” fechou o período pré-encore com um lotado Coliseu a cantar alguns dos versos mais emblemáticos do Portugal musical de 2016.

Já o concerto estava mais que ganho por esta altura. Mas ainda havia um encore para celebrar a Batalha de Formariz antes de Alvalade chamar pelo regresso dos seus filhos pródigos a casa.

Mais que uma noite de celebração de glórias passadas, este foi um concerto de futuro. Estabelecido que está o lugar dos Capitão Fausto no panorama atual, sabemos, voltando ao começo deste texto, que já será difícil sermos esmagados pela novidade, pela leve brisa de um novo encantamento. O lado positivo, é que temos aqui um porto seguro e uma banda feita por rapazes com menos de 30 anos e que bem cedo nas suas vidas impôs-se já como fundamental para a árvore genealógica futura do rock português do tempo presente. Grande banda, fantástica noite, excelentes discos, ótimos músicos – os elogios são pouco criativos, mas todos são poucos para os Capitão Fausto.

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Fotos: Francisco Pereira

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