Canção do dia

“E Depois do Adeus” – Paulo de Carvalho

Em plenas celebrações do aniversário do 25 de Abril,  muitos temas se poderiam aqui trazer. Aliás, desde o início dos anos 70 até final dessa década, Portugal viveu num fecundíssimo caldo de cultura, tendo a produção musical à cabeça desses tempos, sobretudo devido à política como combustível da arte. Em termos da revolução propriamente dita, duas músicas se afiguram acima de todas as outras: “Grândola Vila Morena”, do pai-fundador José Afonso, e “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. De facto, as duas músicas têm em comum apenas o facto de terem ambas sido usadas como senha radiofónica para os militares que fizeram o golpe do 25 de Abril. Musical e politicamente, nada têm a ver: “Grândola” é uma música esparsa, austera, real, assente praticamente apenas na força da voz, enquanto a sua mensagem política é inequívoca; já “E depois do adeus” é, toda ela, orquestração, arranjos de cordas, romance, melodia, entretenimento, com o amor, ou o fim deste, enquanto pano de fundo.

Com música e arranjos de José Calvário e letra de José Niza, “E depois do adeus” ficará para sempre como um marco na voz de Paulo de Carvalho, homem que já fez de tudo um pouco na música portuguesa (desde baterista dos Sheiks a compositor do hino do PSD, por exemplo). Numa prestação portentosa que dificilmente não arrepia o ouvinte, Paulo de Carvalho sagrou-se vencedor do Festival RTP da Canção de 1974. Numa altura em que o festival era, de facto, um grande acontecimento nacional, a canção ficou de imediato no ouvido do povo português. A desilusão surgiu pouco depois quando, a 6 de Abril no Reino Unido, “E depois do adeus” ficou em último lugar no Festival Eurovisão da Canção: obteve apenas 3 votos, os mesmos que os temas da Alemanha, Noruega e Suíça. A título de curiosidade, esse festival foi ganho por um conjunto relativamente desconhecido oriundo da Suécia: davam pelo nome de Abba e interpretaram “Waterloo”. Outra revolução, desta vez musical, estava também a caminho.

Na noite de 24 de Abril, “E depois do adeus” foi a primeira senha radiofónica para os militares envolvidos na revolução. Emitida às 22h35 na antena dos Emissores Associados de Lisboa, foi escolhida pelo facto de não levantar suspeitas: era um tema popular que passava muitas vezes na rádio. Naquele momento, os militares revoltosos ficaram a saber que as operações deviam arrancar, pois esta era a primeira senha combinada. A segunda, “Grândola Vila Morena”, foi emitida às 00h20 pela Rádio Renascença. A emissão deste tema controverso na antena católica significava uma coisa: a revolução estava em marcha acelerada e, agora, era ir até ao fim.

Muitos tentaram interpretar “E depois do adeus” de forma política, com o “adeus” a referir-se ao fim do regime, algo de que não há qualquer indicação. No ano anterior,1973, “Tourada” havia ganho o Festival, na voz do agora emigrado Fernando Tordo e com letra de Ary dos Santos, e essa sim era uma canção política. Faltava um ano ainda a esperar, mas a liberdade vinha a caminho.

Na verdade, o poder de “E depois do adeus” está na sua melodia, na sua composição, na fantástica e marcante interpretação de Paulo de Carvalho. Neste feliz dia de Abril, uma bonita canção que anunciava a boa nova ao povo português.

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