Reportagens

Bons Sons 2018 – Dia 3

Conforme as escrituras, foi ao terceiro dia que Cem Soldos estremeceu. Na noite mais intensa do festival, milhares de pessoas encheram as ruas da aldeia, com a lotação praticamente esgotada.

Depois dos Artesãos da Música trazerem à igreja bom humor e instrumentos seus, feitos à mão, com os quais percorreram de lés-a-lés os cantares de Portugal, O Gajo levou uma tempestuosa viola campaniça ao palco Giacometti. Os temas instrumentais dedilhados com mestria exploraram a sonoridade do instrumento muitas vezes ignorado, como uma banda sonora para cenas sobre a portugalidade.

Ela Vaz fez as delícias do público, fazendo jus ao nome do palco de onde cantava, o palco Amália. Uma extraordinária força que foi do fado ao jazz, o concerto passou também pelas raízes tamobreadas do folclore português. Acompanhada à guitarra e ao piano, Ela surpreendeu na apresentação do seu primeiro disco em nome próprio, EU, e deixou a plateia com sede de mais.

Se nos admirávamos com a resposta do público era porque não estávamos preparados para o que viria a seguir. Depois de uma inesperada aparição de Zeca Medeiros e Filipa Pais nas imediações do palco Giacometti que nos abriu o apetite para o concerto que dariam à noite, os quartoquarto subiram ao palco Giacometti para mostrar que o rock alternativo português ainda está de boa saúde. As canções de pós-rock descompassado eram melosas e intimistas, como se quer na divisão doméstica que escolheram como nome. Vencedores da última edição do Festival Termómetro, que lhes garantiu lugar no cartaz do Bons Sons, a banda de Lisboa apresentou-se humilde e o vocalista João Vidigueira feliz por, cinco anos depois de ter sido espectador, poder agora estar em palco. Ao longo do concerto, os quatro rapazes fizeram agitar cabeças, dobrar pescoços, bater pés e até lágrimas cair, com a plateia inteira a implorar pelo encore. Foi o guitarrista Luís Lucena quem subiu ao palco para agradecer, sorridente, o carinho do público, encorajando antes a plateia a ver, ouvir e viver a aldeia.

Com a noite a cair pouco tempo depois, já a aldeia rebentava pelas costuras e a energia não esmorecia. Zeca Medeiros foi provocador de alguns dos momentos mais ternurentos e fraternos do festival, chamando João Afonso e Filipa Pais a palco diversas vezes. A voz densa e enrugada do cantor açoriano trouxe a canção portuguesa aos nossos ouvidos, num concerto familiar muito aplaudido. Zeca Afonso foi de novo evocado, desta vez no palco com o seu nome, com o tema “O Cantador”, que lhe é dedicado. Um bem haja

De seguida seria o rock ‘n’ roll de Sean Riley & The Slowriders a agitar Cem Soldos, no largo principal (palco Lopes-Graça), imediatamente antes dos Paus invadirem o palco Zeca Afonso com loucura incessante. Crowdsurf, mosh pits e uma bateria siamesa pujante – particularmente em temas mais antigos como “Deixa-me Ser”, “Mudo e Surdo” e “Pelo Pulso” mas também em “Madeira” ou “Mo People” – arrasaram com a encosta escondida atrás do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS).

Depois dos sopros e da ginga dos Cais Sodré Funk Connection, era chegada a hora de um dos concertos mais esperados do festival: o de Conan Osiris. As gentes não arredaram pé e a praça permaneceu cheia em espera ansiosa, apenas se voltando para o lado contrário ao palco Lopes-Graça. A recepção foi calorosa pra ambas as partes e Osiris não tardou em partir chão juntamente com o dançarino João Moreira e os milhares que o escutavam, dançando também. O caos estava lançado no palco Aguardela e o ritmo não abrandou enquanto o lisboeta de 29 anos cantava as canções de ADORO BOLOS (2017) mas também de MUSICA, NORMAL (2016), com o tema “AMALIA” a terminar o concerto.

Para o DJ set de Colorau Som Sistema, que começaria logo a seguir no mesmo palco, permaneceu a maioria, numa viagem por funanás, cumbias e outros géneros tropicais que proporcionaram o aquecimento necessário à noite fresca.

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Fotografia: Carolina dos Santos

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