Reportagens

Bonga // B Fachada || Galeria Zé dos Bois

Bonga regressou a Lisboa para um serão de amor e festa, antecedido pelo seu neto musical B Fachada. Na memória fica-nos uma noite dedicada à recordação, da maneira mais bela e simples de todas: a música e a dança como meio para atingir a felicidade.

São raras as vezes em que vemos as lendas como começaram. Em salas pequenas e escuras, com lotação esgotada às duas centenas de pessoas, com uma cerveja na mão e o intimismo de um grupo de amigos num café. Ir em 2017 à Galeria Zé dos Bois ver Bonga e B Fachada na mesma noite é o equivalente português a regressar ao Afrika Shrine, em Lagos da Nigéria, ver Fela Kuti e companheiros. O artista, o mito, a poucos metros de nós, quase de braço dado cantando as canções de sempre, aqui e ali comentando o estado das coisas: das relações humanas, das políticas nacionais, de qualquer coisa que viesse à cabeça.

Antes da estrela da noite, quem subia ao palco era B Fachada. Num concerto curto e, no início, marcado por problemas de som, ouviram-se versões despidas de “Afro-Xula”, “Quem Quer Fumar com o B Fachada”, “Camuflado”, “Crus” e “Joana Transmontana” de mão na braguesa, microfones desligados e público deliciado – de telemóveis e vozes no ar. Mas tínhamos de nos despachar pra Bonga e quem o dizia era o próprio Fachada, que rapidamente cedeu o lugar ao mestre.

A dicanza voava para cima e para baixo a dar o ritmo daquele semba tão quente e meloso, as tumbas para aqui e para acolá a estalar e a fazer saltar mais um pingo de suor, os pés sempre batendo e ancas rodopiando. Era assim em “Kamacove”, “Marimbondo” e “Homem do Saco”. Em “Mona Ki Ngi Xica” tempo para descansar mas sempre tempo para cantar a saudade, que não é só portuguesa. Depois, “Mulemba Xangola”, com a dança sempre certa e o mulherengo Bonga a confirmar: “É isso me’mo!”

Serpenteando pelos seus 45 anos de carreira com o maior à vontade e sempre com uma interpretação quase perfeita das suas canções, Bonga punha-nos a dançar e cantar com um sorriso raro – como cantava o coro a que nos juntávamos em “Água Rara”. Por entre as canções lembrava nomes tão grandes quanto a memória: Chico Buarque, Amália Rodrigues, Cesária Évora e Mercedes Sosa celebravam também connosco. Para regozijo do público, claro, a dupla “Olhos Molhados” e “Mariquinha”, que partia o chão e abanava os vidros do aquário da ZDB. Pelo meio, o nosso soba chamava B Fachada, que adoptava como neto, para uma curta ode a Santo António que marcou a passagem de testemunho e vincou o desejo assumido de mais troca cultural entre os povos e países.

Na primeira colaboração entre a Galeria Zé dos Bois e a Super Bock, o frio ficou à porta e fez-se amor e calor ao som do mestre do semba, numa noite sobretudo bonita, que fica na memória de todos os presentes como exemplo de como a música deve ser partilhada. Sem olhar à idade, ao país de origem ou à cor do ritmo. Ouvindo, rindo e dançando.

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Fotos gentilmente cedidas por Vera Marmelo.