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Bom dia, tristeza: doçura e desespero em Elliott Smith

Nick Drake matou-se com comprimidos. Ian Curtis enforcou-se. Cobain deu um tiro na cabeça. Mas ao pé de Elliott Smith, que trinchou o seu próprio coração com um cutelo de cozinha, são todos uns meninos.

Assim se escreve na CMTV do rock, vendendo o suicídio ao quilo para sacar mais visualizações. E, contudo, fica tudo por dizer. A infância traumática, o refúgio no álcool e na heroína, e a morte trágica aos 34 anos podem confirmar o mito do “artista atormentado” mas pouco revelam sobre a obra de Elliott Smith. É a última que nos interessa acima de tudo investigar.

No seu âmago, Elliott é dor e doçura. A sua voz macia e gentil é, no fundo, uma armadilha. De mansinho, como quem não quer a coisa, o éter do seu canto vai-nos embalando, baixando as nossas defesas, e quando damos por nós já estamos totalmente rendidos ao torpor da sua melancolia.

Depois, vem a sua invulgar completude. Nick Drake é incrível mas não trata dos arranjos. Ian Curtis é arrepiante mas os seus compinchas dos Joy Division têm de lhe servir primeiro o substrato musical. Cobain sabe escrever canções mas a sua técnica como guitarrista é limitada. Já Elliott Smith é brilhante em todas as frentes: grande escritor de canções; bonita voz; exímio guitarrista (especialmente no dedilhado da guitarra acústica); versátil multi-instrumentista (baixo, bateria, piano, tudo o mais que encontrar à mão); inventivo arranjador; e um letrista dotado, rei do país dos corações partidos. Mas se tivéssemos que escolher uma qualidade sobre as demais, sublinharíamos o seu talento harmónico: no centro de uma qualquer canção de Elliott está sempre uma complexa e imaginativa sequência de acordes, como poucas vezes encontramos na música pop. Claro que os Beatles são uma excepção, e uma influência evidente na música de Smith.

Elliott Smith num concerto dos Heatmiser.

Estamos em Portland, estado de Oregon. Elliott integra os Heatmiser, a típica banda de rock musculado pós-Nevermind. Gravam três LPs entre 1993 e 1996, mas Smith cedo se apercebe que a agressividade do seu som não era o melhor veículo para exprimir a sua delicada sensibilidade.  De maneira que, ainda antes de ter a coragem para abandonar os Heatmiser, já Elliott se refugia nos seus primeiros discos a solo: acústicos, solitários, quase anacrónicos. Seria na recusa do espírito grungy do seu tempo que Smith se encontraria.

O seu álbum de estreia, Roman Candle, surge em 1994. Elliott tacteia no escuro, ainda à procura de encontrar a sua própria voz, mas é um disco encantador, de uma intimidade desarmante. Gravado em casa da namorada num gravador de 4 pistas, com um tosco microfone captando tudo directamente (sem o auxílio sequer de um pickup para a guitarra), é natural que tudo soe sujo; mas com o seu absurdo talento, Smith transforma o lixo lo-fi em ouro criativo. É aqui que ensaia um truque de produção que atravessaria toda a sua obra: o doubletracking da voz e da guitarra, criando bonitos ecos e reforçando a intimidade quando eles desaparecem. Destacamos a lindíssima “Condor Ave.” e os seus comoventes versos: “não sei o que fazer agora das tuas roupas e das tuas cartas, vão para sempre sussurrar o teu nome”.

No ano seguinte, Elliott volta à carga com o seu disco homónimo. A produção é ainda lo-fi mas as canções são mais memoráveis. Que o diga Wes Anderson, que nunca esqueceu a sombria “Needle in the Hay”, usando-a anos mais tarde na banda-sonora de “The Royal Tenenbaums”. Idem aspas para os Queens of the Stone Age, que fariam uma versão de “Christian Brothers” no seu disco Era Vulgaris. Belos temas, sim, senhor, apesar da nossa favorita ser “Biggest Lie”. “Estou cansado de dançar num pote de ouro, a tinta toda a estalar”, confessa o nosso macambúzio de eleição.

O “artista atormentado” também sorri.

À terceira é de vez. Depois do caminho de descoberta dos dois primeiros discos, Elliott chega finalmente à maturidade criativa com Either/Or. Estamos em 1997 e o facto de no ano anterior se ter desenvencilhado dos Heatmiser permitiu-lhe concentrar todo o seu talento no seu trabalho a solo. A produção ainda é semi-caseira mas um pouco menos tosca do que nos capítulos anteriores. Os arranjos são mais cuidadosos, com doces harmonias vocais à Beatles. Algumas das suas canções mais bonitas, como “Between the Bars”, “Angeles” e “Say Yes” encontram-se nesta rodela, o que não passou despercebido a Gus Van Sant, que logo as roubou para o seu filme “Good Will Hunting”. “Miss Misery”, que não pertence a Either/Or, figurou igualmente na banda-sonora, mudando para sempre a carreira de Elliott Smith. A canção foi nomeada para os Óscares, perdendo para a xaropada da Celine Dion no “Titanic”. Pouco importa: a sua breve actuação na cerimónia dos Óscares, vista por milhões de espectadores, atraiu de imediato o interesse das grandes editoras.

Smith não perde tempo. No ano seguinte, já com a chancela da major DreamWorks, lança XO, a sua obra-prima. No pico da sua criatividade, e finalmente com um estúdio profissional ao seu dispor, tudo se conjuga: grandes canções, sofisticados arranjos, brilhantes interpretações e uma produção polida mas vibrante. Os temas começam habitualmente despidos, quase só guitarra e voz, mas vão crescendo devagar, acrescentando camadas, um piano aqui, umas cordas ali, uns sopros acolá. As canções soam-nos maravilhosamente simples mas a sua construção é quase sempre complexa e engenhosa. Veja-se, por exemplo, o caso de “Sweet Adeline”. Acordes maiores soando tristes? Só o príncipe do desalento o consegue. O truque é acompanhar os acordes com notas que descem sempre os degraus da sua escala, criando assim a tal disposição melancólica. Um último destaque para a beleza intemporal de “Waltz #2”, com a sua elegância quase erudita. As palavras não lhe ficam atrás: “ela não mostra qualquer emoção, olha para o vazio como uma boneca de porcelana morta”. O sacana sabe escrever!

Em 2000, sai para os escaparates o estupendo Figure 8. O requinte dos arranjos permanece mas agora com uma vibração mais roqueira e electrificada, muito classic rock, com o feeling orgânico dos últimos discos dos Beatles. A guitarra eléctrica e o piano bluesy gingam cheios de vitalidade. Elliott cria a ilusão de que é acompanhado por uma banda de rock, quando na verdade é ele que se desdobra num número demente de overdubs. A balada ao piano “Everything Means Nothing to Me” é das poucas canções pop capazes de rivalizar com a “Eleanor Rigby” dos Beatles em termos de dramatismo e altivez.

Elliott ao piano.

Segue-se o período mais escuro da vida de Elliott. Encharca-se em cavalo e crack, com consequências para a sua frágil saúde mental. Paranóico, acha que uma carrinha branca está sempre a persegui-lo, e jura a pés juntos que a sua editora anda a remexer no seu computador, para lhe roubar as gravações. A morte é uma permanente obsessão. A única ligação que mantém com a vida é através da sua música. Entrou agora numa nova fase criativa. As suas canções são mais sombrias e psicadélicas, e a produção mais suja e dissonante. As melodias continuam lindíssimas mas Smith pretende agora desfigurá-las com o ácido de guitarras desafinadas e distorção. As letras são obscenamente auto-biográficas, cartas abertas de suicídio. Em “Twilight”, faz rasgados elogios a uma namorada mas depois remata: “I’m already someone’s baby”…

No dia 21 de Outubro de 2003, a morte apronta-se e sai à rua. A namorada encontra Elliott com uma faca enterrada no peito, o sangue a jorrar do coração. Não teve afinal tempo de acabar o seu último álbum. From a Basement on the Hill só sairia um ano depois, com decisões finais de selecção e produção já fora do seu alcance. Na testamentária “King’s Crossing”, Smith pergunta: “Give me one good reason not do it”. Postumamente, a sua família acrescentou: “because we love you”. Mas o amor não o salvou.

Resta a herança. E fiquemo-nos por um único (mas elucidativo) exemplo. O grande disco de 2015 foi Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens, uma obra-prima de uma poesia arrebatadora. Comparem-no agora com “Angeles” e descubram onde Sufjan foi roubar quase tudo…

Não há como fugir. O legado que Elliott Smith deixou é incalculável.