Canção do dia

“Bad Liver and a Broken Heart” – Tom Waits

Sexta-feira à noite. Sem me fazer acompanhar por alguém, sento-me ao balcão de um bar. Peço uma bebida espirituosa qualquer e beberico-a. Finalmente. Mais uma semana de trabalho passou e, desta vez, as coisas não estão a correr assim tão mal.

Alguma coisa começou a feder. Vem do meu lado: é um homem de mãos rugosas. Não lhe vejo a cara, tapada por cabelo e um fedora, mas nota-se que mistura há muito vários tipos de venenos. Manteve-se em silêncio até esvaziar o copo. “Mais. Mais. Mais”, disse, tornando o seu apelo mais rabugento.

Ele olhou para mim, queria conversa. Evitei-o, numa tentativa fútil: ele ignorou o meu desprezo, continuando a contar a sua história. Aparentemente, a mulher trocou-o por uma advogado bem-sucedido há bem pouco tempo. Apesar de ressabiado, já a recordava com melancolia: “Ela era afiada como uma lâmina e tão leve quanto uma oração. Fazíamos um belo par”.

Era mais um bêbedo, de coração e fígado partido, que tentava curar os desamores com Red Label, sem pedras de gelo.

Em 1976, Tom Waits podia ser o senhor de fedora. Com o sucesso crescente dos dois primeiros discos, Closing Time (1973) e The Heart of Saturday Night (1974), Waits passava cada vez mais tempo na estrada e, durante os primeiros quatro anos de carreira, viveu muitos excessos.

O terceiro disco, Small Change (1976), é a ressaca de Waits. Num tom cínico e pessimista, o cantautor afugenta os seus males a cantar (e a beber mais). “The Piano Has Been Drinking” e “Bad Liver and a Broken Heart” são exemplos disso.