Reportagens

Animal Collective || Capitólio

No final do ano passado, os Animal Collective anunciaram um concerto a celebrar os vinte e um anos da Pitchfork no qual tocariam Sung Tongs, de 2004, na íntegra. Uns meses depois anunciaram uma digressão mundial do disco, com um concerto agendado para dia 21 de junho em Portugal, no Capitólio de Lisboa, organizado pela Galeria Zé dos Bois.

Eric Copeland foi o responsável pela primeira parte com um set experimental, dando primazia ao ritmo e às frequências mais baixas do espectro sonoro. Membro dos Black Dice, que celebraram no ano passado vinte anos de carreira e amigo de longa data de David Portner e Noah Lennox, a sua estética musical aproxima-se dos trabalhos mais antigos dos Animal Collective. O seu set consistiu maioritariamente em músicas do seu último disco, Goofballs em adição a algumas músicas novas, com uma sonoridade que lembra a pop avant-garde do seu disco Black Bubblegum.

À medida que os beats estridentes e o baixo monolítico se desvaneciam, o entusiasmo do público aumentava em proporção direta com o calor da sala. Pouco tempo depois, Avey Tare e Panda Bear entravam em palco e, empunhando as suas guitarras acústicas começaram a tocar notas desordenadas em aparente improviso. Os fãs mais atentos reconheceram “Tuvin” uma das músicas inéditas da era Sung Tongs, que não era tocada desde 2004. As guitarras arrítmicas vão-se ordenando lentamente numa transição para “Leaf House” que abre o disco. Tanto nesta música como em “Who Could Win a Rabbit” o entusiasmo do público notou-se, à medida que entoavam em uníssono com a banda, letras abstratas como “Hungry bread and butter hustle/You’ll be doing it a while, livers only fail”.

Mas é em “The Softest Voice” (e, mais tarde, “Visiting Friends”) que o público tem a oportunidade de vislumbrar o potencial da guitarra acústica para criar paisagens psicadélicas e hipnóticas. A sincronia que quase duas décadas de concertos desenvolve nos músicos é assombrosa; a maneira como, do éter, os versos nascem e mínguam e as diferentes secções das canções sucedem umas às outras de forma tão precisa mas mantendo a ilusão de espontaneidade. “Winters Love” e “Kids on Holiday” são clássicos consagrados e encheram os corações do público de calor. A primeira música exibiu as capacidades vocais de ambos, enchendo o Capitólio com as suas harmonias infantis e celestiais. Já a segunda remeteu-nos para o último disco da banda, Painting With, com a intercalação vocal entre Panda Bear e Avey Tare no refrão da música.

O registo torna-se brevemente mais solene e contemplativo em “College” que, cantada mais lentamente, se estendeu por uma aparente eternidade antes da cacofonia a cappella de “We Tigers” ter proporcionado ao concerto o seu momento mais caótico e intenso. “Mouth Wooed Her” contou com a exibição vocal de Panda Bear que, em adição às suas belíssimas harmonias afogadas em efeitos, cantou polifonicamente (ou seja, duas notas ao mesmo tempo) e “Whaddit I Done” fechou a parte principal do concerto, sendo a música final do disco.

O encore foi dedicado a músicas do EP complementar de Sung Tongs, Prospect Hummer. A faixa título contou com a participação do público, pois o seu refrão não pede menos: é uma daquelas músicas que transbordam com a exuberância infantil que caracteriza o trabalho da banda nessa época. Por fim, “I Remember Learning How to Dive” soou a um abraço quentinho que há-de ter deixado todos quanto assistiram ao concerto de coração mais que cheio.

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Fotografias gentilmente cedidas por Vera Marmelo

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