Canção do dia

“All Blues” – Miles Davis

Nunca hei-de escrever sobre jazz, dizia eu ontem à Marta, que só havia de dizer asneira ou, quando não a dissesse, de amputar ou deturpar ou, no melhor dos casos, mitigar-lhe o mérito. Porque é estabilizar, enfim, coisa que nasce da vicissitude, estilhaçar o improviso cristalizado; meter o nariz onde não se é chamado. Desonestidade intelectual o seria, possivelmente. Da mesma maneira que Kind of Blue, o vinil, é o cliché do dia monumental em que Davis deu meia dúzia de indicações e antecipou o crepitar virtuoso, este texto é a impertinência fundamental daquele que ouve e contempla e devora, a última instância de um “eu gosto” visceral, de um abrilhantar de olhos; um canito a abanar a cauda. Deixo-me quieto, não escrevo sobre este jazz, força nisso, caro leitor, que eu me calo, não me ouça o que digo, que está tudo no silêncio; não no meu, mas no desta aproximação do que aconteceu naquele dia, os silêncios e as notas, as coisas todas.