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50 anos sem Otis Redding

Há 50 anos, o pequeno avião que transportava Otis Redding e os Bar-Kays despenhava-se nas águas geladas do Lago Momona, no Wisconsin. Foi o fim do mais promissor intérprete de soul da sua geração, no pico da sua carreira.

Otis Redding nasceu para cantar, e muito cedo percebeu que esse, e só esse, seria o seu bilhete para uma vida melhor. Vindo ao mundo em 1941, na pequena vila de Dawsons, no Estado da Geórgia, pouco tempo depois a família Redding migrava para Norte em busca de trabalho. O destino era a mais cosmopolita Macon, que tinha uma coincidência premonitória: era a terra natal não apenas de Little Richard como também de James Brown.

Um jovem Otis Redding

A sua infância foi passada a brincar na rua e a cantar na igreja, com a sua família. Foi aí que ganhou as suas bases, embora nunca tivesse sabido ler música. Era puro instinto, poder vocal, energia. Na adolescência, o gospel deu lugar ao R&B e aos blues. É incerta a confiança que o jovem Otis tinha no que seria o seu futuro, mas uma coisa todos os que o conheceram o admitem: estava sempre mais feliz a cantar, ainda mais quando experimentou a magia do palco.

A primeira experiência foi num concurso de talentos para adolescentes, o Teenage Party organizado pelo Dj Hamp Swain. Otis ganhou à primeira e, sendo um concurso semanal, passou os meses seguintes a ganhar consecutivamente, e a aprender a actuar ao vivo. Esmagou a concorrência até ser proibido de voltar a concorrer, para dar uma oportunidades aos outros. Era apenas um garoto, mas já se estava a fazer notar. Na verdade, nunca mais olhou para trás.

Começou a dar concertos com várias bandas. Uma delas era do guitarrista Johnny Perkins, que conhecera no tal concurso de talentos, e que já tinha uma sólida rede de contactos para espectáculos. Através de Perkins, Redding conheceria Phil Walden, que estava a tentar uma carreira na música e já tinha um acordo com a então jovem editora Stax Records.

Antes disso, Otis chegou a gravar um single para uma pequena editora, a Confederate, no qual, como muitos outros cantores de então, se limitava a imitar o grande Little Richard. “Bamalama”, o tema em causa, não fez ondas. Redding deixou então a família e foi tentar a sorte para Los Angeles, mas sem sucesso. Acabou por voltar à Geórgia, abatido e sem rumo, até que o destino lhe entreabriu a porta.

O seu amigo Phil Walden tinha uma sessão de gravação com a Stax, que pertencia à Atlantic. Com Walden despachado, e uns minutos de estúdio ainda disponíveis, Redding chegou-se à frente e pediu para tentar. Gravou a magnífica balada “These Arms of Mine”, e com esses minutos deu um pontapé na porta que marcaria o seu destino. A Stax, caldeirão fervilhante de criatividade soul e r&b, seria a sua nova casa.

Seria também o sinal do que estava ali. Otis não era apenas um extraordinário vocalista, mas também um enorme inventor de canções. “These Arms of Mine” é sua, bem como o clássico absoluto que é “Respect”, que faria a carreira de outra gigante, Aretha Franklin, que a gravou como primeiro tema do seu primeiro disco, ficando “dona” da canção.

Em 1962, aos 20 anos, a sua carreira finalmente arrancava, no seio da família Stax, onde a banda da casa eram os magníficos Booker T and the Mg’s. Nada mal como companhia…

Face ao modelo habitual da Stax e também da Motown, Redding preferia um estilo diferente: nada ou quase nada de coros e uma utilização intensiva de instrumentos de sopro. Durante vários anos, esse seria o seu som de marca.

Ao vivo, Otis era sempre uma máquina imparável

Os anos seguintes foram naturalmente intensos, com muitos espectáculos e muitos discos e singles gravados, sempre para a Stax, casa de gente tão ilustre como as Staple Sisters ou Isaac Hayes, que funcionava também como uma espécie de super-produtor e líder em estúdio.

1965 é um ano importante, com a edição do LP Otis Blue, a tentativa mais assertiva de estabelecer definitivamente o nome de Otis Redding ao lado de James Brown e dos colossos da Motown. Otis Blue tinha tudo o que é preciso para entender a música de Redding. Baladas, covers de gente como os Rolling Stones e BB King, três temas de homenagem ao herói de Otis, Sam Cooke, assassinado pouco tempo antes, e várias músicas da autoria do próprio Redding. O disco deu-se bem nas tabelas americanas mas, sobretudo, arrasou no Reino Unido, onde chegou a número seis nas vendas de álbuns e conseguiu mesmo um single no número um: uma versão de “My Girl”, de Smokey Robinson. Otis tinha conseguido concretizar o sonho que tinha tido ao chegar a Macon.

Otis Blue, o clássico editado em 1965

Em Setembro de 1966 e em Março do ano seguinte, Otis atravessava o oceano em direcção a Inglaterra, onde as estrelas da Stax – com o próprio à cabeça – eram tratadas como realeza. É também dessa altura a criação de uma sub-editora do próprio Redding, que queria assinar com novos artistas e construir assim o seu próprio império musical, à semelhança do que faziam outros grandes como James Brown ou Ray Charles.

Em Inglaterra, os Beatles mandaram limousines para ir buscar os músicos da Stax ao aeroporto, tal era a sua dimensão em terras de Sua Majestade. Otis deu vários concertos esgotados, depois a comitiva conquistou o Olympia, em Paris, e fechou uma bem sucedida digressão por vários países da Escandinávia. Em declarações à revista Hit Parade, aquando dessa avalanche inglesa, Otis explicou: “Muito bonito. Trataram-me como sendo alguém”.

Duas estrelas da Stax, um disco que fez furor

De regresso aos EUA, Otis entra para estúdio para gravar um disco de duetos com Carla Thomas, estrela precoce da Stax. O disco faz mossa nas tabelas de pop, onde a música negra tentava entrar, e foi o álbum comercialmente mais bem sucedido de Redding nesse campeonato, pelo menos enquanto foi vivo.

1967 teria ainda outro episódio marcante, que mostraria que a música de Redding e da Stax não estava destinada a ficar muito tempo nos compartimentos de música negra. O manager dos Rolling Stones, Andrew Loog Oldham, convidou Redding para um festival em São Francisco, que começava a desenhar um alinhamento de sonho. Com o apoio em palco pelos Booker T and the Mg’s assegurado, Otis estava a bordo, do que viria a ser o mítico festival de Monterey, em Junho desse ano.

Devido ao atraso de outros artistas desse dia (entre eles Jefferson Airplane, The Byrds, Big Brother and the Holding Company ou Country Joe & The Fish), Otis fechou o espectáculo já de madrugada. Sem problemas. O seu set rebentou com tudo e acordou toda a gente. Como lembra o músico Wayne Jackson, em declarações recentes à Mojo: “nem me lembro quem tocou antes de nós em Monterey. Não importava. Quando o Otis entrava em palco estava tudo acabado. Quem quer que abrisse para nós ou viesse a seguir estava acabado. O Otis tomava conta”.

Otis, na madrugada em que conquistou Monterey

Logo a seguir à vitória esmagadora em Monterey, Redding seguiu para uma intensa digressão americana, a bordo de um recém-adquirido pequeno avião Cessna, que desempenharia um tão trágico papel poucos meses depois. Terminada a digressão, Otis estava de rastos fisicamente. Não parava há anos. Alugou uma pequena casa em Sausalito, com vista para a baía de São Francisco, e descansou. Seriam os dias aí passados que renderiam o icónico tema “(Sittin’ on) The Dock of the Bay”.

Em Outubro, voa para Nova Iorque para o que seria uma semana triunfal no Apollo, mas teve de cancelar. Os seus problemas na garganta haviam-se agravado ao ponto de ele necessitar de ser operado, o que aconteceu logo em Nova Iorque. Regressou à sua família e ao seu rancho em Macon, ficando quinze dias sem poder sequer falar, temendo seriamente pela continuação da sua carreira.

As preocupações não tinham razão de ser. Logo em Novembro, Otis está recuperado e vai para estúdio, gravando vários temas, entre eles “Dock of the Bay”. Depois de três semanas de gravação, está de novo optimista e cheio de força, e prepara-se para voltar aos concertos, com duas datas em Dezembro. Com ele vão os Bar-Kays, uma jovem mas muito promissora banda da Stax que servia como grupo de estrada e que estava a seguir as pisadas dos Booker T and the Mg´s.

O músico em frente ao Beechcraft que o levaria à morte

Seguiram no Cessna, que entretanto havia sido adaptado e transformado num Beechcraft 18. Depois da primeira data, em Cleveland, dirigiram-se a Madison, no Wisconsin. O tempo estava terrível, mas foi tomada a decisão de voar, contra aquilo que eram os conselhos de James Brown, que na sua autobiografia conta uma conversa alegadamente tida com Otis pouco antes. “Disse-lhe que alguém o estava a enganar, que aquele avião era pequeno, velho e cheio de problemas e que não era suposto levar toda aquela gente e todo aquele equipamento”, recordaria Brown.

Na tarde desse sábado, 10 de Dezembro de 1967, o Beechcraft fazia a aproximação ao aeroporto no meio de um denso nevoeiro. O avião começou a tremer – parte dos ocupantes vinha a dormir e acordou então – e caiu de nariz no lago gelado, a poucos quilómetros da pista do aeroporto.

Otis morreu aí, assim como o piloto, assistentes e praticamente todos os Bar-Kays. O único sobrevivente foi o trompetista Ben Cauley, que foi cuspido com o impacto e, apesar de não saber nadar, se agarrou a uma almofada que flutuava. Viria, m

A morte prematura de Redding fez manchetes em todo o país

ais tarde, a continuar a carreira dos Bar-Kays, com uma banda nova.

A notícia chegou à família de Redding, a verdadeira e a da Stax, onde um chocado Isaac Hayes (que havia sido convidado para ir naquela digressão) ficou sem reacção, lembrando depois que a morte de Otis foi o princípio do fim da Stax. “Foi um choque e uma perda tremendas. Ele era o nosso herói e não era de todo uma pessoa pretensiosa. Há aquelas pessoas que conseguem fama e fortuna e se tornam um pouco convencidas. Ele não era assim, era uma pessoa simples. Sempre. E gostava sempre de ter ideias e às vezes trabalhávamos a noite inteira. Dormi várias noites debaixo do piano, no chão, quando trabalhava com ele, ficávamos no estúdio. Ninguém se recusava a trabalhar com ele, ele era a força motriz de tudo, sempre a animar e a puxar por toda a gente”, refere Hayes no já citado artigo da Mojo.

A mítica editora Stax, em Memphis, no Tenessee, no início dos anos 60

Com a partida de Redding, a Stax começa a concentrar-se ainda mais na figura de Hayes, que nos anos 70 vai gravando sucessos, entrando nas tabelas pop e ganhando muito dinheiro. O sentimento de família foi-se perdendo, os gangster armados começaram a rondar os estúdios e, pouco a pouco, a Stax foi perdendo os artistas que a fizeram, incluindo o fundamental Booker T. Faliu, agora está de volta, dedicando-se sobretudo a honrar a extraordinária história da extraordinária música feita naquela rua, em Memphis.

Poucas semanas depois do funeral de Otis, com autorização da família, é editado “(Sittin’ at) The Dock of the Bay”, com boa parte da nação de luto. O disco chegou a número 1 nos EUA e 3 no Reino Unido, conquistando o primeiro lugar das preferências dos leitores do Melody Maker, destronando Elvis, que dominara toda a década anterior.

É um dos temas mais calmos alguma vez compostos e cantados por Redding, mas é justo que tenha ficado como o seu epitáfio musical. É um testemunho de paz, de calma, de doçura mas também de luta e de garra, cansada, sim, mas determinada.

O mundo perdeu Otis há cinquenta anos. Mas a sua música continua, e continuará para sempre connosco.